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OS FILHINHOS DE GORETE

Gorete nasceu perto do Velho Chico, era um vizinho precioso. Bebeu da sua água, banhou-se, alimentou-se do seu peixe e aprendeu a observar o movimento das águas. Bem cedo era manso, no final do dia, apareciam as marolas. Na época da seca, era sereno, as águas escorriam devagar. Na época da invernada era bravo! As águas corriam, formavam fortes corredeiras para despencar nas cachoeiras.

Filha de sertanejos, uma família numerosa, dedicada a pesca e agricultura artesanais. Cresceu e viu casando as irmãs mais velhas, até que chegou sua vez. A família não se agradou do pretendente, mas ela não abriu mão da sua grande paixão. Contrariando a tudo e a todos, foram morar juntos. Um dia a família se renderia ao fato consumado, pensava.

Vivia muito bem no seu cantinho, junto com o amado que trabalhava na roça, enquanto ela, além do emprego, cuidava da casa. O tempo passando e não aparecia um fruto do seu amor. Achava estranho, as irmãs cheias de filhos e ela nada! Conformada, deixou o caso nas mãos de DEUS, e cuidou de ser feliz.

Era uma boa funcionária, sempre alegre, disponível, trabalhava com prazer. Sua pequena casa, um local acolhedor, não apenas pela limpeza, mas pela organização e decoração. A começar pelo jardim, as plantas chamavam a atenção dos transeuntes. O interior da casa, cheio de almofadas coloridas, bibelôs, flores e enfeites diversos, parecia uma casa de bonecas.

Um dia, descuidou-se e deixou a porta aberta, foi quando entrou Andrezinho, um anjo que veio para a terra, mas deixou metade do juízo no céu. Tinha 6 anos. Entrou de mansinho e começou a observar tudo, pegava alguma coisa, admirava e depois colocava no lugar. De repente, viu Gorete que, calada, o observava. E entre eles, travou-se o seguinte diálogo:

- Gorete, você tem um filhinho?

- Não.

Mas, você não tem nem um filhinho!

Não.

E porque você não tem um filhinho?

A cada resposta a criança parecia decepcionada, e embaraçada, sem saber bem o que fazia, Gorete, pegou o pequenino pela mão e o levou ao fundo do quintal onde num buraco, escondiam-se dois sapos.

- Veja meus dois filhinhos! O menino deu-se por satisfeito.

Noite de lua cheia, crianças brincam em frente de suas casas, de repente um menino-anjo aflito, numa atitude protetora gritava:

- Não joguem pedras, não façam nada, são os filhinhos de Gorete!


Si Cabral
sicabral@ibest.com.br