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02.07.2020

Cordel produzido por piauiense conta história do coronavírus, o ‘ladrão de São João’;


O piauiense Rômulo Maia, de Pio IX, cidade a 450km da capital Teresina, produziu um cordel para expressar o vazio deixado pelo adiamento das festas juninas por causa do isolamento social, necessário para conter a Covid-19. O poema, que viralizou nas redes sociais, diz que o coronavírus é o "ladrão de São João", mas o sentimento pela tradicional data se manteve vivo. Assista o vídeo.

Para escrever o cordel, Rômulo deixou uma postagem em uma rede social para que seus amigos pudessem compartilhar o que mais sentiam falta nessa época do ano. Daí, vieram as sugestões para compor o poema.

“A pandemia veio e interrompeu essa tradição que é tão nossa. Não tem como perdoar um vírus que nos tira o São João. Junho é o ano todo para nós nordestinos. Saber esperar é garantir que próximo ano será diferente e que poderemos levantar muita poeira nos terreiros da vida”, continuou.

No cordel, Rômulo ressaltou o silêncio deixado pelos tradicionais instrumentos tocados no São João. “Não haverá xaxado, arrastapé, nem baião. Sanfonas em silêncio, acordes de lamentação”, lamentou.

Para Rômulo, no contexto do isolamento social, a suspensão das comemorações das festas que acontecem tradicionalmente no mês de junho foi o maior baque até agora, pois é nesse período que as culturas e tradições nordestinas ganham destaque.

“Para que o cordel não levasse apenas meus sentimentos e impressões, pedi no Facebook que as pessoas me contassem o que mais faria falta em junho, sem festas juninas. Para minha surpresa, todos que responderam manifestaram as mesmas coisas que eu sentia. Daí nasceu o cordel”, explicou.
Ainda de acordo com Rômulo Maia, as festas juninas entram na vida do nordestino ainda na infância, nas festinhas da escola.

“Poxa, junho sem festa junina? Sem poder sentar, conversar, visitar, tomar café ou uma cervejinha com a família ou os amigos reunidos? Repara como é esquisito um tempo em que ficar longe é sinal de consideração e que negar um abraço é sinal de respeito”, explicou.

Ladrão de São João

Tá aqui dentro da gente,
No DNA nordestino,
É parte do nosso todo,
A cultura do mês junino.
Os cheiros e sabores,
Os temperos e amores
Desse tempo especial
Aí vem uma pandemia,
E estraga a alegria
De forma tão radical.

Esse tal coronavírus
Bagunçou nossas rotinas
E além dos beijos e abraços
Nos tirou as festas juninas.
Não haverá quadrilha,
Dançar forró é armadilha,
Ninguém pode se aproximar,
É preciso cuidado,
Eu sei que dá enfado,
Mas teremos que esperar.

Olha coronavírus
Não tem como perdoar,
Como tu ousa vir aqui
E derramar o mucunzá?
Tirar o sabor da paçoca,
O pipocar da pipoca
O grudento do alfinim,
A buchada, o sarapatel,
A maçã melada de mel...
Ah se eu te pego, bichim.

A beleza da meninada
Vestida pra se apresentar
Os passinhos sem compasso
Jeitim dengoso de dançar
Os bigodes pintados
Os cocó amarrados
Os vestidos multicor
É difícil pensar,
Mas nada disso haverá
Por conta desse temor.

Não haverá xaxado,
Arrastapé, nem baião.
Sanfonas em silêncio
Acordes de lamentação.
Nem forró pé de serra
Ou pé sujo de terra,
Do pisadim arrastado.
O tocador tá sisudo,
O cantor ficou mudo,
Culpa desse vírus abestado.

Já dou por falta do barulho
Das bomba de São João,
Do cheirinho de pólvora,
Se alastrando no salão.
A lenha queimando,
A fogueira esquentando,
A turma em reunião
Mês de junho sem isso
Sem esse rebuliço,
Num é mês de junho não.

A gente na pracinha,
Caçando comida e conversa
O povo encostando
O relógio sem pressa.
Tem rima, apresentação,
Pau de sebo, diversão.
Ô Covid da mulesta
Aqui se conta nos dedos
O dia pros Folguedos
E tu estraga nossa festa.

Ah se alguém grita
Lá no meio do salão
“É mentiiiiiiira!”
“Num tem Covid não”
“Alavantu, Anarriê
Passa a dama e balancê”
Mas num tem saída
Pra seguir em frente
Tem que girar diferente
Na grande roda da vida.

Seguiremos aqui,
Mascarados a esperar.
O Gonzagão que há em nós,
Vírus nenhum há de calar.
No peito tem fogueira,
Um calor de primeira
Que nunca se acaba.
No braseiro do coração
Arde forte essa paixão
Pode vir 10 mil praga.

Não tem bandeirinha,
Mas tem o luar do sertão.
A cruviana de noitinha
Soprando sua canção.
Se não faltar sorte
Tem um trio de caçote
Tocando desafinado,
Seguido da passarada
Logo na alvorada: É o forró assobiado.

O São João é dentro da gente
E ao redor de nós tudim.
Tá no mundo todo
Tradição que não tem fim.
No matuto moderno
De gibão ou de terno
Sai até no respirar
É da nossa natureza
E tem tanta dureza
Que vírus nenhum há de quebrar.

Agora eu digo a vocês
E é cheio de rancor
Que a peste desse Covid
Esse espalhador de horror
É persona non grata
É visita ingrata
Não merece compaixão
Não tem como desculpar
Quem ousou roubar
A alegria do nosso São João


Fonte: G1



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